hoje fui ao ortopedista e, enquanto esperava o atendimento, encontrei uma entrevista com o pedro cardoso feita pela eliane lobato na edição de 12 de agosto da revista istoé… ctrl+c, ctrl+v pra vocês:
“ISTOÉ – Há quantos anos faz o personagem Agostinho?
Já discutiu a sua relação com ele?
Pedro Cardoso - Faço há nove anos. Já discuti a relação sim, e acho que o Agostinho é como Macunaíma, o personagem do Mario de Andrade. É o herói sem caráter. A gente costuma associar a palavra caráter ao sentido moral, mas ela tem um sentido anterior, que é cara. O herói sem cara, sem definição da sua personalidade. O Brasil é um país sem caráter nesse sentido, é um povo ainda sem formação.
ISTOÉ - Mas ele também tem defeito de caráter no sentido moral, vive dando pequenos golpes. Isso também tem a ver com o coletivo brasileiro?
Cardoso - Difícil de responder. Num país ilegal, como o Brasil, onde o Estado legisla a favor da classe política, é muito difícil para o cidadão entender que ele tem de seguir regras tão restritivas à liberdade individual em nome do bem comum. Quando o bem comum está sendo verdadeiramente construído, é mais fácil aceitar que se tenha de andar abaixo do limite de velocidade. Agora, quando o bem coletivo está sendo permanentemente subtraído pela classe política, é difícil para o cidadão compreender que ele, além de pagar impostos, tem de se comportar assim. O Agostinho representa um anti-herói dessa revolta inconsciente.
ISTOÉ - O brasileiro desobedece embaixo para contestar o que é feito em cima?
Cardoso - A pessoa que comete a pequena irregularidade da vida comum está protestando como uma criança contra o Estado. Vivemos num país onde um médico desenhou no braço de uma mulher grávida o número do ônibus que ela tinha de pegar para ir a outro hospital. O bebê morreu. O Brasil é feito para nos matar e não para nos fazer viver. E mata. As pessoas que não têm dinheiro morrem nos hospitais públicos. Que governante pode abrir a boca para dizer alguma coisa contra um cidadão? Como pode algum governante ainda ter um sorriso?
ISTOÉ – Nunca pensou em ser político? É primo do ex-presidente Fernando Henrique Cardoso e seu avô foi presidente do Banco do Brasil.
Cardoso - Deus me livre. A preocupação política, em mim, não é partidária. Essa me dá preguiça, embora eu saiba que tem de existir. A política que é a ciência do convívio, no entanto, me interessa por causa do teatro, que é uma reflexão da vida em comum.
ISTOÉ - O sr. convive com FHC?
Cardoso – Sim, convivência familiar. Gosto muito dele. Como gostava imensamente da Ruth (Cardoso, já falecida). Ela era uma pessoa muito legal. Ele também é.
ISTOÉ - O sr. disse que votou em Lula todas as vezes que ele foi candidato, inclusive quando disputou com FHC. Vai votar na provável candidata de Lula, a ministra Dilma Rousseff?
Cardoso - Não sei, sinceramente. Confesso que o governo Lula me deixou tremendamente perplexo. E, olhando em volta, acho que o Brasil mudou pouco e mudou numa velocidade pequena diante do tamanho dos problemas que tem. Acho que precisamos tomar atitudes individuais contra toda essa situação absurda que está acontecendo no cenário político.
ISTOÉ - Quais atitudes?
Cardoso - Nenhum ato antidemocrático irá gerar outra democracia melhor. Não acredito que para passar de uma democracia imperfeita para uma mais perfeita seja preciso instalar o totalitarismo. A ação à qual me refiro é individual. A um custo pessoal muito grande, sempre me oponho quando o Estado quer me impor algo arbitrário ou é invasivo. É muito difícil ser justo individualmente num país injusto. No entanto, acredito que só na solidão da ação individual é que o mundo começa a melhorar. Cada um tem de ser chamado à sua individualidade.
ISTOÉ - No início deste ano o sr. provocou grande polêmica ao discutir a pornografia disfarçada nos meios de comunicação. Valeu a pena?
Cardoso - Nada na minha vida pública valeu mais a pena. Eu era muito sufocado, oprimido por essa circunstância. Ao produzir o filme “Todo Mundo Tem Problemas Sexuais”, pensei: meu Deus do céu, como vou lançar um filme que tem esse nome que evoca o que há de pior na história do cinema brasileiro? Que remete àquelas apelações, a mulher de calcinha e sutiã andando para lá e para cá, o desrespeito imenso com a mulher que o cinema brasileiro cultivou durante décadas? Eu queria de alguma maneira avisar o público que esse filme não tinha mulher de calcinha fingindo que a cena era cômica.
ISTOÉ – Outros artistas não concordaram.
Cardoso - Não tenho nenhum interesse em me dirigir à classe artística porque, com meus colegas, eu falo nos estúdios, nos ensaios. Eu me dirigi ao público e a reação dele foi de muita compreensão. O que algumas pessoas da classe artística disseram me parece tão irrelevante que nem me dou ao trabalho de responder. O empresário que investe em comunicação de massa tem seus capatazes para exigir que as atrizes, muito mais que os atores, façam cenas aparentemente dentro da trama mas que, na maioria das vezes, são simples apêndices de nudez para vender a pornografia. Nada contra a pornografia em si. Meu inimigo é o seu disfarce num comportamento aceitável.
ISTOÉ - Quem são esses capatazes?
Cardoso - Um diretor, um produtor, aquele que enquadra os atores na eficiência dos negócios que ele rege.
ISTOÉ - Por que isso incomodou?
Cardoso - Porque mexi com interesses econômicos, não tem nada a ver com liberdade individual. Não botei o dedo na cara de nenhum colega que fez essas cenas. Botei o dedo na cara dos capatazes dos patrões que os obrigaram a fazer. Incomodei. E tentaram me desmoralizar pessoalmente, que é sempre o que se faz quando alguém fala alguma coisa que tem consequências econômicas negativas para o mercado.
ISTOÉ - Já ficou nu atuando?
Cardoso - Nunca fiz nudez total porque acho que não conseguiria continuar contando a história. E, como escritor, nunca impus isso a um colega
ISTOÉ - Há cenas de nudez, ou quase nudez, em basicamente todos os programas. O público deve gostar.
Cardoso - Vou dar um exemplo cabotino: “A Grande Família” é um programa que tem pornografia disfarçada próximo do zero. E será difícil encontrar um programa que tenha maior aceitação do público brasileiro.
ISTOÉ - A Rede Globo, que propaga um padrão de qualidade superior, também está incluída?
Cardoso – Todas as emissoras. A minha observação é fato cultural do Brasil, não se dirige a nenhuma pessoa jurídica específica e também não exime nenhuma. Agora, posso falar especialmente da Rede Globo, se alguém quiser
ISTOÉ – Então fale.
Cardoso - Trabalho na Rede Globo há quase 30 anos, me sinto confortável para falar dela. O que estou apontando é um fato que está na mídia porque a mídia é a parte visível da sociedade. Mas esse fato está culturalmente dentro do País. Isso é que é grave. Não quero falar especificamente de um programa. Friso apenas que é um ato cultural abrangente e muito presente na vida de todos. Acho que a Rede Globo tem um mérito enorme: investe pesadamente em teledramaturgia brasileira. E criou com a classe artística uma relação colaborativa.
ISTOÉ - Mas também há pornografia disfarçada na Rede Globo?
Cardoso - Sim. Não só a pornografia pode vir disfarçada, também a perversidade pode estar disfarçada. O perigo dessa questão é parecer que eu considere a repressão à vida sexual anterior aos anos 1950 positiva. Não acho isso. Apenas vejo que está acontecendo agora uma nova opressão, que é impor à sociedade o convívio com o estímulo erótico quando ele é indesejado. Quando se está com a família assistindo à televisão, não se está querendo ser excitado sexualmente, está-se querendo passar alguns momentos pacíficos. E só. Há programas de televisão que se autodenominam reais e nos quais o que se vê lá dentro é totalmente falso a tal ponto de que todo mundo toma banho vestido. É porque aquele banho não é para se lavar, é para produzir cenas de pornografia disfarçada.
ISTOÉ - Todos têm problemas sexuais?
Cardoso - Não é que todo mundo tenha problemas sexuais, é que o problema que todo mundo tem se torna bastante evidente nos encontros sexuais porque é um momento que não admite muita falsidade. A polidez e o resguardo dificilmente se mantêm no encontro sexual, e nem são bem-vindos.
ISTOÉ - O sr. se recusou a começar um espetáculo até que uma criança fosse retirada da plateia?
Cardoso - Sim. Pedi a alguém da produção que explicasse ao pai que a peça tinha censura. Foi um acidente. O pai não fez por maldade. Não sei se ele ficou chateado, mas saiu. Eu sei que não faço essa peça para menores de idade. A censura é 18 anos porque julgo que o assunto tratado exija que a pessoa já tenha amadurecido. Senão, é opressor. Acho mesmo que a televisão brasileira, ao impor a pornografia disfarçada ao longo da programação, incorre em crime de pedofilia.
ISTOÉ - Isso atravessou a autoridade do pai?
Cardoso - A autoridade do pai não se coloca acima da minha decisão de fazer o que considero ser adequado para determinada faixa de pessoas assistir. É minha responsabilidade dizer: eu não faço para menores de 18. Assim como um cirurgião não vai fazer determinada cirurgia só porque alguém quer. Queria que o público soubesse que sei a diferença entre ser um ator e ser um objeto da indústria de comunicação de massa. Sou um ator. “
eu já era fã…
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